As tradições negro-africanas precisam tirar do armário a meditação

JOKO (senta),  TUNU (acalma), ASARO (medita)

Isso o que chamamos de “candomblé” é um amalgamado de várias práticas, princípios e valores filosóficos negro-africanos que na diáspora tomaram um contorno cúltico e religioso. A verdade é que gostando ou não, o que chegou aqui foi a metade, da metade, da metade daquele conhecimento civilizatório que construía o pensamento africano. Não raro, ativistas otimistas costumam dizer que são descendentes de reis, rainhas, príncipes, princesas e sacerdotes ao referirem-se aos seus ancestrais. Bem, esse é um discurso positivo, porém, não factual, pois o comércio de escravizados corrompeu as elites africanas político-sacerdotais e, portanto, durante o tempo em que esse comércio vigorou não chegou aqui no Brasil nenhum velho, anciãos e anciãs, detentores de senioridade iniciática. Ou seja, homens jovens eram o foco do comércio escravocrata e, portanto, poucos ou nenhum homem sábio/filósofo veio as Américas. Temos registros de estudiosos islâmicos que aqui chegaram, mas a vinda desses homens também foi motivada por disputas internas em África.

O que quero dizer com tudo isso? Que não é de se esperar que no candomblé encontremos um sistema meditativo organizado.

Obviamente, tudo o que falei não faz do candomblé uma tradição religiosa inferior as tradições africanas, pois mesmo essas tradições já passaram por um processo de corrompimento e as chamadas classes sacerdotais igualmente já terem entrado num processo longo de corrupção (centenas de títulos religiosos são constantemente vendidos a estrangeiros). Hoje sabemos que esse processo de pulverização da filosofia yoruba, por exemplo, começou pouco antes do início do processo de colonialidade europeia.

De qualquer forma, para filosofia yorubaYemonja, conhecida como Odo Ya(Mãe do Rio), é o arquétipo da meditação e dos estados de consciência ampliada que levam a experiências místicas de unidade e/ou a iluminação. Na literatura antiga yoruba o rio era um símbolo de nossa consciência, do continnum de consciência desperta que trazemos, cuja natureza é a calma e o silêncio, esse continnum de consciência chamamos de Ori, que possui alguns níveis sutis, desde os mais baixos aos mais elevados (Ori-Orun – natureza iluminada não-dual fundida com o cosmos). É justamente por isso que observamos que no Brasil, Yemonja assume a posição de “protetora do Ori” e é saudada em rituais como o “bori”.

Além disso, na filosofia yoruba temos uma antiga prática meditativa que aliava respiração e exercícios corporais, chamada “Riro”.

Bem, com tudo isso eu tenho dito que as tradições negro-africanas precisam tirar do armário a meditação.

Ejawo ninu apon tio yo, elogbomi’ila kana   (Para o velho, experimenta algo novo – Provérbio Yoruba)

Por Felipe Káyòdé  – Psicanalista, Colunista na Revista Quilombo, Doutorado em Antropologia da Religião na instituição de ensino École Doctorale de Théologie et Sciences Religieuses Strasbourg.

Imagem: Women Of Color Healing Retreats (Retiros de cura de mulheres negras)

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