Meditar é coisa de Preto, viu!?

Àsàrò (meditação em yoruba) é um dos maiores patrimônios do caminho de sabedoria e da filosofia que nos foi legada pelos nossos ancestrais, mas também é o patrimônio mais ignorado por nós. Meditar, colocar-se em silêncio e pôr-se presente e consciente no Agora é uma prática ancestral e também africana. Nossos ancestrais eram grandes meditadores e contemplativos!

Àsàrò é uma prática não-religiosa e nossos ancestrais a entendiam como simples cultivo de uma percepção renovada capaz de gerar clareza, lucidez e compaixão. A empreitada colonial corrompeu nossas filosofias a ponto da prática meditativa formal ser descontinuada. Obviamente isso fazia (e faz!) parte do projeto colonial, pois o racismo precisava ser uma violação psicológica sistemática, já a cultura colonial racista necessitava fazer em nós um saque antecipado de todos os recursos que pudessem fazer-nos reerguer no futuro.

Nos EUA, jovens professores negros de meditação e meditadores de cor têm empreendido vigorosos projetos de ensino e prática meditativa em escolas públicas, igrejas e centros comunitários em bairros negros. Tais projetos, especialmente nas escolas, têm elevado os índices de aprendizagem, reduzido conflitos e surtido efeitos positivos em jovens envolvidos em condutas consideradas anti-sociais. Isso porque a meditação é extremamente eficaz para comunidades marginalizadas ou historicamente traumatizadas.

A prática de àsàrò “é o melhor ebó”, me disse certa vez uma sacerdotisa de òrìsà meditadora, isso porque a meditação é o treinamento de Ori (consciência/mente), pois ela atua para reprogramar nossa mente e para superarmos o excesso de estímulos, trabalhando silenciosamente na raiz de traumas e problemas sintomáticos. Além disso, é o caminho para manter a consciência de nossa verdadeira natureza (Ori-Orun), gerando equilíbrio, saúde e sabedoria.

Nunca oponha seu ativismo ao cuidado de si mesmo.

Sou um meditador orgulhoso! E você?

Por Felipe Káyòdé – Psicanalista, teólogo, meditador e professor de estudos religiosos e pós-coloniais. Estudou Doutorado em Antropologia da Religião na instituição de ensino École Doctorale de Théologie et Sciences Religieuses Strasbourg. De Salvador, Bahia. Mora em Santiago, Chile.

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