O Candomblé é fundamentalista?

PERGUNTARAM-ME SE O CANDOMBLÉ É FUNDAMENTALISTA

Como estudioso e professor no campo dos estudos religiosos e pós-coloniais e como pessoa negra, eu não podia resignar-me de responder essa importante questão. Como aprendiz de terapeuta interessava-me ainda mais esse ponto, pois sei dos danos que uma certa “síndrome do trauma religioso” tem causado em muitas pessoas. Logo, de forma sincera disse que estava diante de uma questão ambivalente e que a resposta poderia custar-me muito caro entre meus pares.

Tentei fazer algumas reflexões que logo se mostraram um tanto vazias e que diante daqueles que me ouviam parecia que eu mantinha na verdade uma posição de autodefesa. Então, como professor e estudioso honesto que sou, decidi então desculpar-me e responder a questão com sinceridade e fidelidade intelectual.

Primeiro, voltei-me a pessoa (uma aluna do curso de teologia) e perguntei-lhe o que ela definia como fundamentalismo e como fundamentalismo religioso. Ela, uma mulher negra, foi formidável na resposta. Sim, concordei quando ela definiu o fundamentalismo como um equívoco, um equívoco de quem não sustenta interpretações e que a partir disso defende que há um “fundamento” imutável, intangível, infalível e inerrante.

Ela foi mais ousada e perguntou-me: “Então, doutor, dirás que fundamentalismo é um privilégio das religiões abraâmicas?”. Senti-me atacado! Mas, eu senti-me assim porque o fundamentalismo é isso, um medo! Era eu um fundamentalista? Então, disse-lhe que não, de forma bem sincera. Concluí que a religião é uma poderosa fonte política, mas uma fonte política que pode ser perigosa em qualquer lugar. E que ela se faz perigosa quando sustentamos a idéia de que o discurso religioso não nasce de um imaginário, de uma ideologia, de um elemento cultural, da história de um povo, mas que ele nasce como algo dado, suspenso acima do tempo e do espaço e que, portanto, não é passível de reflexão, ponderação, crítica, transformação, reexame.

Afirmei, então, que o candomblé nasce quando tudo parecia impossível e perdido e, que nesse vazio reunimos muitas narrativas e tradições e projetamos na religião que estávamos criando uma força fundamental de mudança, de transformação social. E, aquele movimento religioso nasce fundamentalmente não-fundamentalista pois ele reunia elementos que pareciam tão distintos, os relia, os reelaborava e os convergia para gerar uma força política contra a hegemonia política e religiosa fundamentalista cristã.

Mas, tive que afirmar que se hoje nós cedêssemos ao fundamentalismo, estaríamos então cedendo ao medo, a um medo que nunca tivemos que era do movimento, da realidade transitória, da mutação e da capacidade de se reinventar. Eu terminei então dizendo: “Queridos, eu quero que candomblé não seja fundamentalista”.

OBS: Yemonja originalmente é um Òrìsà do rio, das águas doces (Odò Ìyá), mas na diáspora foi associada ao mar.

Por Felipe Káyòdé  – Psicanalista, Colunista na Revista Quilombo, Doutorado em Antropologia da Religião na instituição de ensino École Doctorale de Théologie et Sciences Religieuses Strasbourg

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