Um Legado de Luta e Ancestralidade
É com profundo pesar e o coração consternado que a comunidade do Afrokut comunica o falecimento, ocorrido no dia 03 de dezembro de 2025, do nosso estimado Babalawo Marcio Alexandre Martins Gualberto (Marcio Obeate – Ifairawo).
Marcio, Babalawo do Ifá Cubano no Rio de Janeiro, não foi apenas um líder religioso; foi um gigante na defesa dos direitos humanos, um intelectual orgânico e uma prova viva da força de Òrúnmilá.
O Legado Intelectual e Político
Jornalista, pesquisador, escritor e militante, Marcio nos deixa uma obra fundamental: o livro “Mapa da Intolerância Religiosa no Brasil” (MIR – 2011).
Sua obra não é apenas um registro estatístico, mas um verdadeiro escudo jurídico. O MIR trouxe à luz fundamentos legais que asseguram a diversidade religiosa e a liberdade de culto, destacando instrumentos como o CBO (Código Brasileiro de Ocupação), que reconhece os ministros de culto das diversas denominações.
Como ele mesmo defendia, sua luta era pela democracia radical, onde o objetivo final não é a simples “tolerância”, mas o respeito como fundamento da convivência entre os sujeitos sociais. O MIR permanece como um instrumento de cidadania vital para todas e todos os vivenciadores dos Cultos aos Orixás, Inquices, Voduns, Ancestrais e Antepassados.
O Caminho de Volta e a Vida Religiosa
A trajetória de Marcio Alexandre foi marcada pelo “caminho de volta”. Filho de pai e mãe negros, nascido em família presbiteriana — igreja da qual foi membro por 27 anos, estudando teologia e liderando a juventude —, ele escutou em 1999 o chamado irresistível da ancestralidade.
Buscou no Candomblé o reencontro com a matriz africana, religando-se às raízes da Casa-das-Minas, no Maranhão, terra de sua avó. Filho de Xangô, Marcio tornou-se Ogan de Yemonjá do Ilê Axé Iyá Omo Ejá (Cordovil), casa comandada pela Iyalorixá Francys de Yemonjá, de raiz do Ilê Axé Oxumarê.
Resiliência e Inovação
Marcio foi um guerreiro que desafiou a lógica médica. Por diversas vezes, internado em UTIs com prognósticos de menos de 24 horas de vida, ele driblou a morte, provando com sua existência o poder de cura e proteção de Òrúnmilá.
Em seus últimos anos, sua mente inquieta e criativa dedicou-se à sustentabilidade e à bioarquitetura. Criava móveis reaproveitando madeira, estudava a aplicação do bambu em casas populares e pesquisava o reuso da água da chuva, mostrando que sua espiritualidade também se manifestava no cuidado com a Terra.
O Afrokut se solidariza com a família biológica, com a família do Ilê Axé Iyá Omo Ejá, amigos e todos aqueles que foram tocados por sua sabedoria e militância.
Que Òrúnmilá o receba em festa no Orun.
Marcio Alexandre M. Gualberto (Ifairawo)
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