Revisão Conceitual e Diálogos Descoloniais
A branquitude emerge como categoria analítica no bojo dos estudos críticos raciais, cunhada para desnaturalizar a posição de poder ocupada por sujeitos racializados como brancos em sociedades estruturadas pelo racismo. Conforme assinalam autores como Frankenberg (1993) e Cardoso (2008), a branquitude não se reduz a uma característica fenotípica, mas constitui um lugar estrutural de privilégio historicamente construído por meio de ideologias de branqueamento e projetos eugenistas que elevaram o branco a um modelo hegemônico de humanidade.
Neste artigo, propomo-nos a revisitar o conceito de branquitude, articulando-o à proposta da AfroHumanitude – quadro teórico que busca superar dicotomias raciais sem apagar diferenças, inspirando-se no Ubuntu (“Eu sou porque nós somos”). Discutiremos como uma branquitude crítica pode operar como ferramenta de transformação antirracista, distanciando-se do “Pacto da Branquitude” (acordo tácito de preservação de privilégios) e alinhando-se a um projeto de justiça racial e reparação histórica.
Já a branquitude acrítica refere-se à aceitação não problematizada dos privilégios raciais. Como define Ruth Frankenberg (apud PIZA, 2002, p. 71), a branquitude é “um lugar estrutural de onde o sujeito branco vê os outros, e a si mesmo, em uma posição de poder”. Esse lugar confortável e invisibilizado sustenta-se numa hierarquização da humanidade que legitima a subalternização de negros, indígenas e outros grupos racializados.
No Brasil, essa dinâmica foi intensamente reforçada pelo mito da democracia racial e pela promoção da mestiçagem como projeto de embranquecimento (SCHUCMAN, 2014). Autores como Cardoso (2008) e Bento (2002) demonstram como a branquitude acrítica perpetua desigualdades ao naturalizar vantagens simbólicas, materiais e políticas usufruídas por brancos.
Em oposição à branquitude acrítica, surge a branquitude crítica – conceito proposto por Lourenço Cardoso (2008) para designar o posicionamento de brancos que, reconhecendo seus privilégios, engajam-se ativamente na luta antirracista. Trata-se de uma “zona fronteiriça” (SANTOS, 2002) de conflito e tensionamento, na qual o sujeito branco se coloca contra o sistema do qual usufrui.
Como assinala Cardoso (2008, p. 182), “problematizar a branquitude na sua diversidade pode contribuir para ampliar e aprofundar o conhecimento sobre as sutilezas da lógica de classificação social que, ao resultar em múltiplas e distintas hierarquias, gera prejuízos para uns e privilégios para outros.” Nessa perspectiva, a branquitude crítica não é uma identidade positiva – tal como a negritude –, mas um processo contínuo de desconstrução de privilégios e de atuação contra o racismo.
A AfroHumanitude oferece uma chave de leitura fundamental para ressignificar a branquitude, transcendendo a dualidade acadêmica que opõe críticos e acríticos. Inspirada no Ubuntu (“Eu sou porque nós somos”), ela propõe um humanismo pluralista que reconhece todas as “humanitudes” – negritude, indigenitude, branquitude (em sua expressão crítica e futuramente hegemônica), parditude – como expressões válidas e interconectadas da experiência humana.
Nessa perspectiva, a branquitude acrítica – marcada pela manutenção inconsciente ou deliberada de privilégios – é entendida como “branquidade“, um estado transitório e a ser superado. Já a branquitude crítica consolida-se como “Branquitude” (em sentido pleno), integrada à essência da AfroHumanitude como projeto de humanização completa. Dentro desse marco, a Branquitude (crítica) é reinterpretada como ferramenta de letramento racial, cura e transformação social. Seu objetivo é:
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Desmantelar a invisibilidade do privilégio branco;
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Promover o autorreconhecimento racial sem romantizações, mas com responsabilidade histórica;
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Estimular ações concretas de equidade e reparação;
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Construir pontes dialógicas com outras humanitudes, rumo a um mundo pós-racial.
Como afirma Memmi (1989), ainda que involuntariamente, brancos antirracistas obtêm vantagens de sua pertença racial. A AfroHumanitude propõe que esse reconhecimento seja o ponto de partida para uma atuação ética e transformadora – não como meio tático, mas como fim em si mesmo: a realização de um humanismo radicalmente inclusivo.
O debate sobre a branquitude – especialmente no contexto brasileiro – segue tensionado, mas a AfroHumanitude oferece um horizonte de superação dessa dualidade. Como alertam Oliveira e Schucman (2022), qualquer proposta identitária deve evitar a fragmentação do campo antirracista, mas aqui propomos que a evolução semântica e conceitual – de “branquidade” (acrítica) para “Branquitude” (crítica e integrada) – é parte do processo de cura social.
A contribuição da AfroHumanitude está em oferecer um quadro teórico integrativo que:
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Reconhece a branquitude como processo contínuo de cura e letramento racial, rumo à sua forma plena e crítica;
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Não rejeita, mas aspira a uma identidade branca positiva – não baseada na superioridade, mas na responsabilidade histórica e no compromisso com a justiça, dentro do espírito Ubuntu;
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Insere-a num projeto maior de humanismo pluralista, onde a luta antirracista não é apenas um meio, mas o próprio fim: a construção de um mundo onde a humanidade realize plenamente sua potência ética e solidária.
Longe de ser um oposto à Negritude, a Branquitude – na perspectiva Afrohumanista – é uma das vias para a construção de um mundo onde, nas palavras de Frantz Fanon (1952), brancos e negros possam finalmente “abolir a raça” como categoria de opressão, não para apagar diferenças, mas para celebrá-las em igualdade radical.
Por Hernani Francisco da Silva – Do Afrokut
Nota sobre a Evolução Terminológica no Artigo:
– Branquidade: estado atual da branquitude acrítica, a ser superado.
– Branquitude: forma crítica, antirracista e integrada à AfroHumanitude – o horizonte para o qual caminhamos.
Referências:
BENTO, Maria Aparecida Silva. “Branqueamento e branquitude no Brasil”. In: CARONE, I.; BENTO, M. A. S. (Orgs.). “Psicologia social do racismo”. Petrópolis: Vozes, 2002.
CARDOSO, Lourenço. “Branquitude acrítica e crítica: a supremacia racial e o branco antirracista”. Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, v. 6, n. 1, p. 63-82, 2008.
FANON, Frantz. “Peau noire, masques blancs”. Paris: Éditions du Seuil, 1952.
FRANKENBERG, Ruth. “White Women, Race Matters: The Social Construction of Whiteness”. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1993.
MEMMI, Albert. “O racismo: descrição, definição, tratamento”. Lisboa: Editorial Estampa, 1989.
OLIVEIRA, Érico A. M.; SCHUCMAN, Lia V. “Noção de parditude é equivocada e representa regressão no debate racial do país”. Blog do Forum, 2022.
PIZA, Edith. “Porta de vidro: entrada para a branquitude”. In: CARONE, I.; BENTO, M. A. S. (Orgs.). “Psicologia social do racismo”. Petrópolis: Vozes, 2002.
SANTOS, Boaventura de Sousa. “Entre Próspero e Caliban: colonialismo, pós-colonialismo e interidentidade”. Novos Estudos CEBRAP, n. 66, p. 23-52, 2002.
SCHUCMAN, Lia Vainer. “Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo”. Porto Alegre: Zouk, 2014.
Severino da Silva, L., & Freitas Góes, E. (2021). O “BRANCO NA BRANQUITUDE” E O “BRANCO ANTIRRACISTA”. Revista Da Associação Brasileira De Pesquisadores/as Negros/As (ABPN), 13(35), 521–533. Recuperado de https://abpnrevista.org.br/site/article/view/848
SILVA, Hernani Francisco da. “Branquitude não é o oposto de Negritude na perspectiva da AfroHumanitude”. Afrokut, 2024. Disponível em: https://afrokut.com.br/branquitude-nao-e-o-oposto-de-negritude-na-perspectiva-da-afrohumanitude/. Acesso em: 27 ago. 2025.
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