Comunalismo e Ubuntu: A Filosofia Africana em Perspectiva

O Comunalismo no Pensamento Político

O comunalismo é uma das três grandes teorias que fundamentam o chamado “comunismo libertário” — ao lado do anarquismo e da esquerda marxista. Segundo o teórico Kenneth Rexroth, o comunalismo agrupa membros de comunidades intencionais que buscam viver em comunas, frequentemente (mas não obrigatoriamente) de inspiração religiosa. Na visão de Rexroth, semelhante ao conceito de TAZ (Zona Autônoma Temporária), a comuna opera dentro do sistema capitalista, mantendo-se autônoma e buscando transformações sociais a longo prazo.

No pensamento libertário contemporâneo, esse conceito é frequentemente referido como comunalismo intencional, associativismo voluntário ou comunalismo libertário. No entanto, quando transpomos o termo para o contexto africano, o comunalismo ganha uma dimensão ética e ontológica muito mais profunda por meio do Ubuntu.

O Comunalismo no Ubuntu

O comunalismo é um dos pilares fundamentais do Ubuntu. Diferente das interpretações ocidentais que o veem como uma escolha política ou organizacional, na filosofia africana ele é um valor intrínseco: o interesse do indivíduo é indissociável do bem-estar do grupo. O coletivo é o foco das atividades e da identidade dos membros da sociedade.

A premissa é clara: o bem de todos determina o bem de cada um. Como observou Adonisi (1994), os valores tradicionais africanos promovem uma visão de mundo comunal em relação à existência. No contexto africano, ninguém vive para si mesmo; vivemos para a comunidade. Sékou Touré afirmou que a África é, em sua essência, “comunocrática”. Isso significa que o indivíduo não concebe sua vida isolada da família, da aldeia ou do clã.

A Identidade Coletiva e a Responsabilidade Moral

Essa visão também é ecoada por Jomo Kenyatta em seus estudos sobre o povo Gikuyu, no Quênia. Kenyatta ressalta que, na forma de pensar tradicional, ninguém é um indivíduo isolado. A singularidade de uma pessoa é um fato secundário; em primeiro lugar, ela é definida por seus laços de parentesco e suas relações contemporâneas. Essa interconexão é a base do sentido de responsabilidade moral e da obrigação social (Kenyatta, 1965).

Do Senegal à Etiópia, do Egito à África do Sul, encontramos evidências do Ubuntu e de sua virtude cardeal: o comunalismo. Embora o contato com culturas ocidentais e a rápida urbanização tenham desafiado essas práticas nas metrópoles africanas, o comunalismo permanece como uma rede vibrante de relacionamentos vinculativos (Mthembu, 1996).

A Prática do Parentesco e o Respeito Ancestral

A dimensão prática do Ubuntu reflete-se na forma como a comunidade cuida de seus membros. As crianças, por exemplo, não pertencem apenas aos pais biológicos; elas estão sob a autoridade e o cuidado de qualquer adulto da comunidade.

Os termos de parentesco reforçam esses laços: em diversas partes do continente, é comum usar o termo “irmã” ou “irmão” para se referir a qualquer membro da comunidade. Da mesma forma, as crianças aprendem cedo a tratar qualquer pessoa da mesma idade de seus pais como “pai” ou “mãe”. Chamar um mais velho apenas pelo nome é considerado desrespeitoso, pois o tratamento familiar reconhece o papel de cuidado e sabedoria que cada adulto exerce sobre os mais jovens.

Considerações Finais

Revisitar o comunalismo sob a ótica do Ubuntu é reconhecer que a autonomia individual só floresce plenamente dentro de uma coletividade saudável. Em um mundo cada vez mais marcado pelo individualismo extremo, a filosofia africana nos recorda da máxima: Eu sou porque nós somos.

Por Hernani Francisco da Silva – Do Afrokut

Referências Bibliográficas

ADONISI, M. A carreira em comunidade. In: CHRISTIE, P.; LESSEM, R.; MBIGI, L. (Eds.). Joanesburgo: Knowledge Resources, 1994. (pp. 309-314).

KENYATTA, J. Facing Mount Kenya (De frente para o Monte Quênia). New York: Vintage, 1965.

MAKHUDU, N. Cultivating a climate of cooperation through Ubuntu. Enterprise Magazine, n. 48, p. 40-42, agosto de 1993.

MTHEMBU, D. African Values: It’s not about time. In: LESSEM, R.; MBIGI, L. (Eds.). African Management. Joanesburgo: Knowledge Resources, 1996.

Autor

  • Fundador e editor da Rede Afrokut. Com uma trajetória dedicada à luta contra o racismo e à transformação da visão das igrejas evangélicas sobre a cultura negra. Reconhecido por sua militância, recebeu prêmios Direitos Humanos da Presidência da República e Prêmio Heróis Invisíveis. Atualmente desenvolve uma abordagem inovadora baseada na AfroHumanitude, focada no autoconhecimento. Criou a Rede Afrokut para conectar pessoas e fortalecer a produção de conteúdo, através da Sankofa, “volte e pegue”, fazendo uma jornada e retornando à fonte Ancestral.

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