Cosmograma Bakongo

Ankh é a personificação geométrica do Cosmograma Bakongo

O Cosmograma Bakongo, também chamado Dikenga ou Yowa, é um dos símbolos mais antigos e significativos da cosmologia Bantu-Kongo. Representado por um círculo cortado por uma cruz, ele expressa o ciclo da vida, da morte e do renascimento, além dos quatro momentos do sol: nascimento, apogeu, morte e retorno. Mais que um desenho, o Dikenga funciona como uma verdadeira bússola espiritual e filosófica, orientando a relação entre o mundo dos vivos e o mundo dos ancestrais, separados pela linha Kalunga.

Estrutura e Simbolismo

  • Círculo e Cruz (Yowa): O círculo representa o movimento contínuo do sol e da existência, enquanto a cruz marca os quatro pontos cardeais da vida humana.

  • Linha Kalunga: A linha horizontal divide o plano físico (Ku Nseke) do plano espiritual (Ku Mpemba), simbolizando também a água como fronteira entre mundos.

  • Movimento Espiralado: A vida não é linear, mas um ciclo contínuo, anti-horário, que conecta nascimento, maturidade e ancestralidade.

Os Quatro Momentos do Sol

O Dikenga traduz o ciclo vital em quatro etapas, cada uma associada a uma fase da vida e a uma cor simbólica:

  • Kala (preto/nascente): Nascimento, crescimento e aprendizado.
  • Tukula (vermelho/ápice): Maturidade, liderança e força plena.

  • Luvemba (branco/poente): Morte, retorno e conexão com os ancestrais.

  • Musoni (amarelo/inferior): Concepção, germinação e silêncio espiritual.

Significado Cultural

Mais que um símbolo cosmológico, o Dikenga é uma filosofia de vida. Ele ensina que a existência é um ciclo contínuo, em que a morte não é fim, mas transição. Como guia ético e espiritual, reforça a importância da ancestralidade e da conexão entre mundos. Sua influência atravessa séculos e continua presente em diversas expressões culturais da Diáspora Africana, como na capoeira angola e em saberes tradicionais bantu.

Do Kongo a Kemet: A Síntese no Ankh

Ao migrarem para o norte do continente africano, povos levaram consigo o Dikenga, que em Kemet foi refinado e codificado no hieróglifo Ankh.

O Ankh é a personificação geométrica do cosmograma:

  • O laço superior simboliza a ciclicidade eterna do sol.

  • A barra horizontal e a haste vertical marcam o espaço-tempo da vida.

Essa “tecnologia simbólica” permitiu aos kemitas compreender que a jornada terrestre é apenas parte de um ciclo maior. O Ankh tornou-se, assim, a Chave da Vida, por revelar como a energia do Criador flui através das fases solares e biológicas.

Por Hernani Francisco da Silva – Do Afrokut

Referências

  • Fu-Kiau, Bunseki. Self-Healing Power and Therapy: Old Teachings from Africa. Vantage Press, 1991.

  • Thompson, Robert Farris. Flash of the Spirit: African and Afro-American Art and Philosophy. Vintage Books, 1984.

  • Osman, A. (2021). African Origins of Ancient Egyptian Civilization.

Autor

  • Fundador e editor da Rede Afrokut. Com uma trajetória dedicada à luta contra o racismo e à transformação da visão das igrejas evangélicas sobre a cultura negra. Reconhecido por sua militância, recebeu prêmios Direitos Humanos da Presidência da República e Prêmio Heróis Invisíveis. Atualmente desenvolve uma abordagem inovadora baseada na AfroHumanitude, focada no autoconhecimento. Criou a Rede Afrokut para conectar pessoas e fortalecer a produção de conteúdo, através da Sankofa, “volte e pegue”, fazendo uma jornada e retornando à fonte Ancestral.

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