Manifesto Global da Teologia Negra

Eis aqui uma grande multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas (Apocalipse 7:9b)

Nós, lideranças negras evangélicas do Brasil e representantes da Colômbia, Cuba, África do Sul, Congo, Angola e EUA, reunidas na IV Consulta Internacional de Teologia Negra, realizada entre os dias 18 e 21 de junho de 2025, na cidade de São Paulo, tornamos público este Manifesto.

Partimos da especificidade da experiência africana e afrodiaspórica, atravessada pela historicidade do colonialismo, da escravização, do racismo e da exclusão social. Neste contexto emerge a Teologia Negra como voz profética, denunciando essas injustiças e anunciando caminhos de libertação e esperança para os povos. Iluminadas e iluminados pela fé no Cristo Negro, rejeitamos as interpretações racistas da Bíblia e reafirmamos que a negritude reflete a imagem e semelhança de Deus.

Vivemos um tempo em que as estruturas coloniais e racistas continuam a reproduzir violências sistêmicas contra os povos. O genocídio interétnico, as políticas de limpeza étnica, a exclusão econômica e social, e a violência policial, que no Brasil mata 62 jovens negros por dia, na Colômbia jovens negros são executados por grupos paramilitares, entre outras, são expressões concretas dessa opressão. Seguindo o exemplo da coragem da África do Sul que expôs o genocídio da Palestina, denunciamos as guerras no Sudão, no Congo, na Nigéria, fomentadas por nacionalismos extremistas, que refletem uma lógica de dominação e exclusão que também se manifesta nas realidades locais de muitos países.

Com este Manifesto, nos dirigimos a todos os governantes para que assumam a responsabilidade de construir sociedades democráticas e, sobretudo, respeitem a autodeterminação dos povos africanos e indígenas. Como parte deste compromisso político, exigimos justiça reparativa como caminhos para a cura e a reconstrução da dignidade humana, pois não existe paz sem justiça.

Nosso desafio é responder à pergunta: Onde está Deus? Estaria Deus nos escombros das guerras? Estaria Deus nas gaiolas que prendem os refugiados? Estaria Deus nos corpos violentados? Estaria Deus no pranto inconsolável das mães negras, pois seus filhos seus já não existem mais? O Deus da Bíblia é aquele que se posiciona ao lado dos oprimidos de todos os tempos e em suas diversas identidades, incluindo raça, gênero, sexualidade e classe. A missão da comunidade de fé é tornar-se espaço de acolhimento e amor como compromisso da superação das múltiplas opressões que afetam, especialmente, as mulheres negras e pessoas LGBTI+. Movidas pela divindade, mulheres negras têm respondido de formas poderosas, como, por exemplo, por meio da Teologia Feminista Negra e Teologia Mulherista.

Neste horizonte, este Manifesto dirige-se às vítimas sistêmicas, conclamando-as a insurgir-se em esperança e criatividade para fomentar a cultura do bem-viver. Nós, povos africanos e afrodiaspóricos, seguiremos valorizando a negritude como dom e resistência, celebrando a beleza das culturas e espiritualidades negras como fonte de vida, força e renovação. Inspiradas e inspirados pelo legado de nossa ancestralidade, desejamos permanecer como um sopro de esperança e um farol de justiça, promovendo o Reino de Deus na terra.

Manifesto Teológico:

O documento é um Manifesto Global da Teologia Negra (“Manifesto Teológico”) resultante da IV Consulta Internacional de Teologia Negra, realizada em São Paulo, de 18 a 21 de junho de 2025, com a participação de lideranças negras evangélicas do Brasil e representantes de Colômbia, Cuba, África do Sul, Congo, Angola e EUA.

Rudiel, Alexander, Jackson, Brasil, Lisa Sharon Harper, Reneé August, Ronilso Pacheco, Elijah Zehyoue, Gabriela Leite, John Thomas, Vanessa Barbosa e Cleusa Caldeira

Autor

Visited 11 times, 1 visit(s) today

Descubra mais sobre Afrokut

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Faça um comentário