Os 7 Princípios Universais de Thoth, a Afro-humanitude e Interdependência Universal

Em um mundo marcado pela fragmentação do conhecimento e por relatos históricos eurocêntricos, emerge com força a busca por cosmovisões que ofereçam uma compreensão mais integrada e decolonial da existência. Nesse contexto, o conceito de Afro-humanitude surge como uma poderosa proposta filosófica que reposiciona a África como o berço da humanidade e o centro de uma sabedoria ancestral universal. Paralelamente, a redescoberta de conhecimentos antigos, como os Sete Princípios Herméticos atribuídos a Thoth, revela uma base filosófica que também propõe leis universais para a compreensão da realidade.

Este artigo se propõe a traçar paralelos conceituais entre a Afro-humanitude e os 7 Princípios Keméticos, argumentando que ambos, apesar de suas distintas trajetórias históricas, compartilham um alicerce comum: a visão de um universo interconectado, regido por leis harmônicas e fundamentado em uma perspectiva holística. Analisaremos cada um dos sete princípios, demonstrando como suas premissas encontram eco em filosofias e valores presentes na Afro-humanitude.

Afro-humanitude: A Interdependência Universal

A Afro-humanitude é um conceito que conecta a ancestralidade africana a uma visão de “humanitude“, compreendida como a interdependência de toda a vida. Propõe a África não apenas como origem biológica, mas também como centro irradiador de uma filosofia de conexão. Essa perspectiva é enriquecida por incorporar sabedorias de outras culturas originárias, que compartilham dessa visão de mundo, tais como:

Ubuntu: Filosofia de origem Bantu que se traduz como “Eu sou porque nós somos“, enfatizando a comunidade e a interconexão como elementos constitutivos do indivíduo.

Sumak Kawsay: Cosmovisão andina que significa “bem-viver“, uma vida em plenitude e harmonia com a comunidade, a natureza e o cosmos.

Teko Porã: Conceito do povo Guarani que se refere ao “bom modo de ser“, uma busca pelo equilíbrio e pela vida boa em comunidade.

A essência da Afro-humanitude é, portanto, o resgate da conexão intrínseca entre todas as pessoas, a partir da centralidade africana como matriz da humanidade.

Os Sete Princípios Universais de Thoth (Hermetismo)

Atribuídos a Thoth, o deus egípcio da sabedoria (posteriormente sincretizado como Hermes Trismegisto), os Sete Princípios Herméticos são a base do hermetismo. Popularizados pela obra O Caibalion, esses ensinamentos são descritos como leis que regem o universo em todos os seus planos. Originários do antigo Kemet (Egito Negro), seu apelo é universal, pois descrevem a harmonia perfeita do cosmos. São eles: Mentalismo, Correspondência, Vibração, Polaridade, Ritmo, Causa e Efeito, e Gênero.

Embora não haja uma linhagem histórica direta documentada entre os conceitos, a convergência filosófica é notável.

O Princípio do Mentalismo (“O TODO é Mente”)

Este princípio postula que o universo é de natureza mental. A Afro-humanitude, ao propor um resgate da centralidade africana como modelo de pensamento, aplica diretamente o mentalismo. A mudança consciente de uma perspectiva eurocêntrica para uma afro-humanocêntrica não é apenas uma troca de narrativas, mas uma transformação fundamental na mente que, por sua vez, altera a percepção da realidade, da história e do valor dos povos.

O Princípio da Correspondência (“O que está em cima é como o que está embaixo”)

A máxima hermética de que existe uma analogia entre os diferentes planos da existência ressoa profundamente na filosofia Ubuntu. “Eu sou porque nós somos” reflete, no plano social (embaixo), a lei universal da interconexão (em cima). A interdependência humana não é um mero contrato social, mas a manifestação terrena de uma verdade cósmica de unidade.

O Princípio da Vibração (“Nada está parado; tudo vibra”)

O hermetismo ensina que tudo no universo está em constante movimento e vibração. Na Afro-humanitude, essa verdade se manifesta na valorização da corporeidade, da musicalidade, da dança e da energia vital (Axé). O Axé, força sagrada que permeia tudo, pode ser compreendido como a própria manifestação do Princípio da Vibração, a energia primordial que anima a realidade e através da qual a experiência sensorial acontece.

O Princípio da Polaridade (“Tudo tem dois polos; os opostos são idênticos em natureza”)

Este princípio afirma que os opostos são apenas diferentes graus da mesma coisa. Na perspectiva da Afro-humanitude, essa dualidade é reconhecida nos reinos físico e mental. Calor e frio, luz e escuridão, são extremos de uma mesma essência. Contudo, essa visão avança ao postular que no plano espiritual, a dualidade se dissolve na unidade. Os paradoxos podem ser reconciliados, pois no espírito, tudo é um.

O Princípio do Ritmo (“Tudo tem fluxo e refluxo”)

O universo se move em ciclos. A vida tem seus altos e baixos, assim como as marés. Na perspectiva da Afro-humanitude, a compreensão deste princípio é fundamental para a resiliência e o equilíbrio. O reconhecimento dos ciclos da vida, da natureza e das emoções permite o desenvolvimento do autoconhecimento e alinha o indivíduo e a comunidade aos fluxos naturais da existência, promovendo o bem-estar coletivo e a certeza de que “somos um Espírito Onipotente Universal para o qual nada é impossível”.

O Princípio de Causa e Efeito (“Toda causa tem seu efeito”)

Nada acontece ao acaso. O conceito de ancestralidade, pilar da Afro-humanitude, é uma aplicação direta desta lei. As ações, sabedorias e energias dos ancestrais (causa) moldam e influenciam profundamente o presente e o futuro da comunidade (efeito). A memória coletiva e o respeito aos que vieram antes são o reconhecimento de que o presente é um efeito direto de um passado que continua vivo.

O Princípio do Gênero (“O Gênero está em tudo”)

Este princípio afirma que tudo contém os aspectos masculino e feminino, cuja interação gera a criação em todos os planos. A Afro-humanitude expande essa noção para além do sexo biológico, compreendendo-a como uma lei de polaridade criativa. A verdadeira igualdade reside na harmonia e no equilíbrio entre essas forças complementares. Afirma-se que tudo e todos possuem ambos os elementos; em todas as mulheres residem qualidades latentes de um homem e em todos os homens, as de uma mulher, o que significa ser completo.

A análise comparativa entre a Afro-humanitude e os Sete Princípios Universais de Thoth revela uma profunda sintonia filosófica. Ambos os sistemas oferecem um mapa para compreender a realidade a partir de uma perspectiva holística, interconectada e espiritual. A Afro-humanitude, com seu foco na ancestralidade e na comunidade, provê um contexto social e cultural para leis que o hermetismo descreve como universais e abstratas.

Este diálogo conceitual não apenas enriquece a compreensão de ambas as filosofias, mas também reforça a ideia de que a sabedoria de matriz africana, seja ela antiga como a de Kemet ou contemporânea como a Afro-humanitude, contém chaves universais para a construção de um futuro mais equilibrado, justo e consciente da unidade fundamental de toda a existência.

Por Hernani FRancisco da Silva – Do Afrokut

Referências

AFROKUT. 7 Leis Quântica do Kemet que mudarão sua vida. Afrokut. Disponível em: https://afrokut.com.br/7-leis-quantica-do-kemet-que-mudarao-sua-vida/. Acesso em: 9 de outubro de 2025.

TRÊS INICIADOS. O Caibalion: Estudo da Filosofia Hermética do Antigo Egito e da Grécia. São Paulo: Editora Pensamento, 2017.

Autor

  • Fundador e editor da Rede Afrokut. Com uma trajetória dedicada à luta contra o racismo e à transformação da visão das igrejas evangélicas sobre a cultura negra. Reconhecido por sua militância, recebeu prêmios Direitos Humanos da Presidência da República e Prêmio Heróis Invisíveis. Atualmente desenvolve uma abordagem inovadora baseada na AfroHumanitude, focada no autoconhecimento. Criou a Rede Afrokut para conectar pessoas e fortalecer a produção de conteúdo, através da Sankofa, “volte e pegue”, fazendo uma jornada e retornando à fonte Ancestral.

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