Parditude na Perspectiva da AfroHumanitude

Reconhecimento, Críticas e a Busca por um Humanismo Pluralista no Brasil

O debate racial no Brasil é marcado por uma tensão histórica entre a força do mito da democracia racial e a realidade brutal do racismo estrutural. Nesse contexto, a categoria “pardo”, oficialmente utilizada pelo IBGE, tornou-se um campo de disputa semântica, política e identitária. De um lado, surge a proposta da Parditude como uma afirmação positiva da identidade mestiça, inserida no projeto mais amplo da AfroHumanitude. De outro, vozes influentes no campo antirracista, como Érico Oliveira, Lia Schucman e Renato Shakur, alertam para os perigos dessa conceituação, interpretando-a como uma armadilha que fragmenta a luta política e serve aos interesses da branquidade (branquitude sem AfroHumanitude). Este artigo busca navegar por esse debate complexo, posicionando a Parditude como uma ferramenta potencialmente válida e complementar dentro de um humanismo pluralista e decolonial.

A AfroHumanitude emerge como uma filosofia que visa superar as dicotomias raciais rígidas sem apagar as diferenças. Inspirada pelo conceito africano de Ubuntu (“Eu sou porque nós somos”), ela propõe que a humanidade é uma teia de interdependência onde diversas “humanitudes” – Negritude, Indigenitude, Branquitude (lugar de privilégio a ser desconstruído) e Parditude – coexistem e se inter-relacionam. Nessa perspectiva, nenhuma dessas identidades é negada. Cada uma é valorizada como uma via singular de experiência e autoconhecimento, uma ferramenta para o letramento racial. O objetivo final não é a hierarquização ou a fragmentação, mas a compreensão profunda de que a luta contra o racismo requer o reconhecimento de todas as nuances da opressão e da resistência, rumo a uma unidade que celebra a diversidade como força.

Dentro deste marco, a Parditude é definida como a valorização e o reconhecimento político e cultural da identidade das pessoas pardas. Seu papel na AfroHumanitude é multifacetado:

  • Combate à Invisibilidade: Dá visibilidade a uma população que, frequentemente, se vê num limbo identitário, não se reconhecendo totalmente no termo “negro” e sendo rejeitada pela branquidade.

  • Celebração da Riqueza Cultural: Reconhece a riqueza cultural e ancestral específica dessa identidade, que carrega heranças africanas, indígenas e europeias, sem romantizar a violência colonial que a originou.

  • Ferramenta de Cura e Autoconhecimento: Funciona como um caminho interior (“de dentro para fora”) para que indivíduos mestiços processem sua história e seu lugar no mundo, lidando com questões como a ambiguidade, o colorismo e a síndrome de impostor racial. Essa cura individual é vista como um passo fundamental para a construção de uma unidade coletiva sólida e autêntica.

As objeções levantadas por Oliveira, Schucman e Shakur são profundas e devem ser levadas a sério. Eles argumentam que:

  • Fragilização do Campo Negro: A criação de uma identidade parda distinta fragmentaria o bloco político “negro” (que historicamente agrega pretos e pardos nas estatísticas de desigualdade), enfraquecendo a base de sustentação das ações afirmativas e da luta política organizada.

  • Funcionalidade à Branquidade: A Parditude, mesmo sem essa intenção, serviria a um projeto de poder que sempre buscou dividir para governar, dificultando a formação de uma consciência negra unificada e combativa.

  • Reificação da Democracia Racial: Shakur, em particular, argumenta que a Parditude, ao colocar um “sinal positivo na miscigenação”, ignora seu caráter violento e histórico e se aproxima perigosamente da ideologia da democracia racial, que sempre negou a existência do racismo.

  • Abandono da Luta de Classes: A crítica marxista de Shakur aponta que focar em identidades específicas pode desviar a atenção da luta contra o capitalismo, sistema intrínseco ao racismo.

A perspectiva da AfroHumanitude oferece contra-argumentos a essas críticas, não para descartá-las, mas para incorporar seus alertas em uma proposta mais complexa.

  • Não é Substituição, é Complementaridade: A Parditude não pretende substituir a Negritude, mas dialogar com ela. A AfroHumanitude entende que forçar uma identidade única sobre experiências diversas pode ser tão opressivo quanto apagá-las. A unidade política não precisa significar uniformidade identitária.

  • Letramento Racial como Antídoto à Fragmentação: Ao invés de fragmentar, a explicitação pedagógica das diferentes humanitudes (incluindo a crítica à Branquitude) pode aprofundar a compreensão do racismo, mostrando como ele opera de formas diferentes sobre corpos diferentes, fortalecendo, assim, a coalizão antirracista.

  • Reconhecer a Complexidade para Enfrentá-la: Ignorar a complexidade da identidade parda não faz ela desaparecer. A AfroHumanitude propõe enfrentar este debate de frente, fornecendo ferramentas para que a identidade parda seja vivida de forma politicamente consciente e alinhada com a luta antirracista, e não como uma fuga dela.

O debate sobre a Parditude é sintomático dos desafios de se construir um projeto antirracista em um país profundamente mestiço e marcado por contradições. As críticas de Oliveira, Schucman e Shakur são um alerta vital contra armadilhas que podem, de fato, enfraquecer a luta. No entanto, a AfroHumanitude apresenta uma perspectiva viável para incorporar a Parditude de forma produtiva. Ela propõe que o caminho para a unidade não é o apagamento das diferenças, mas sua compreensão e valorização crítica. A Parditude, neste sentido, não é o fim da luta, mas um possível novo começo: um instrumento de cura interior e letramento racial que, ao reconhecer a complexidade do ser brasileiro, pode pavimentar o caminho para uma coalizão mais consciente, inclusiva e, portanto, verdadeiramente poderosa contra o racismo e todas as formas de opressão. O desafio permanece: como operacionalizar este ideal teórico na prática, sem cair nas armadilhas tão bem apontadas pelos críticos.

Por Hernani Francisco da Silva – Do Afrokut

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. 1. ed. São Paulo: Pólen, 2019.

MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Tradução de Sebastião Nascimento. 1. ed. São Paulo: n-1 edições, 2018.

NOGUEIRA, Oracy. Preconceito de marca: as relações raciais em Itapetininga. 1. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998.

OLIVEIRA, Érico Andrade Marques de; SCHUCMAN, Lia Vainer. “Noção de parditude é equivocada e representa regressão no debate racial do país”. Folha de S.Paulo, 2025. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2025/08/nocao-de-parditude-e-equivocada-e-representa-regressao-no-debate-racial-do-pais.shtml. Acesso em: 26 ago. 2025.

SCHUCMAN, Lia Vainer. **Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo**. 1. ed. Porto Alegre: Editora Zouk, 2020.

SHAKUR, Renato. Parditude, uma contradição. Revista Casa Marx Edição 17-08-2025. Disponível em: https://www.casamarx.com.br/revista/17-08-2025/parditude-uma-contradicao/. Acesso em: 26 ago. 2025

SILVA, Hernani Francisco da. “AfroHumanitude: Uma Ferramenta Poderosa na Promoção do Letramento Racial”. Afrokut, 2024. Disponível em: https://afrokut.com.br/afrohumanitude-uma-ferramenta-poderosa-na-promocao-do-letramento-racial/. Acesso em: 26 ago. 2025.

Autor

  • Fundador e editor da Rede Afrokut. Com uma trajetória dedicada à luta contra o racismo e à transformação da visão das igrejas evangélicas sobre a cultura negra. Reconhecido por sua militância, recebeu prêmios Direitos Humanos da Presidência da República e Prêmio Heróis Invisíveis. Atualmente desenvolve uma abordagem inovadora baseada na AfroHumanitude, focada no autoconhecimento. Criou a Rede Afrokut para conectar pessoas e fortalecer a produção de conteúdo, através da Sankofa, “volte e pegue”, fazendo uma jornada e retornando à fonte Ancestral.

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