O brasão da Igreja Negra: Do Nilo à Filadélfia
Você já parou para observar o brasão da Igreja Episcopal Africana de São Tomás? Fundada em 1792 na Filadélfia, ela guarda um segredo: no centro de sua identidade cristã, brilha o Ankh ☥, o símbolo kemético da vida eterna.
O Simbolismo do Brasão da Igreja Episcopal Africana de São Tomás
O design do Brasão não é apenas decorativo; ele é uma declaração de identidade política e espiritual.
Tecido Kente: O fundo do escudo é preenchido com os padrões do Kente, originário do povo Ashanti, em Gana. Tradicionalmente, cada cor e padrão tem um significado (como realeza, fertilidade ou força). No brasão, ele afirma que a identidade negra é o alicerce da congregação.
O Ankh (Cruz Ansata): Localizado no centro, o Ankh é um dos símbolos mais antigos da humanidade, vindo do Kemet. Ele representa a “vida” ou o “sopro da vida”.
A Régua (Esquadro): Este símbolo está ligado ao padroeiro da igreja, São Tomás. Na iconografia cristã, o apóstolo Tomás é frequentemente retratado com uma régua de carpinteiro ou uma lança, pois a tradição diz que ele teria construído uma igreja com as próprias mãos na Índia. Em Kemet representa a ética de Ma’at (Verdade e Equilíbrio).
O Escudo Episcopal: O pequeno escudo no lado direito é o selo da Igreja Episcopal dos EUA, conectando a paróquia à sua denominação maior.
Sobre a Igreja Episcopal Africana de São Thomas
Originalmente estabelecida como Igreja Africana, a Igreja Episcopal Africana de St. Thomas foi fundada em 1792 por e para pessoas de ascendência africana, com o objetivo de promover as liberdades pessoais e religiosas e a autodeterminação. A Igreja Africana original surgiu da Sociedade Africana Livre, uma organização de ajuda mútua fundada em 1787 por Absalom Jones , Richard Allen e outros, para auxiliar a população negra da Filadélfia. Os primeiros cultos religiosos eram realizados em residências particulares e em uma escola. Entre os membros da congregação, muitos, devido à crescente tensão racial e aos insultos, seguiram os pregadores leigos, Absalom Jones e Richard Allen, em um protesto histórico que os levou a abandonar a Igreja Metodista de St. George. A filiação à Igreja Episcopal foi ratificada em 1794. O Reverendo Absalom Jones tornou-se o primeiro sacerdote episcopal de ascendência afro-americana e o primeiro reitor da Igreja de St. Thomas.
Por que uma das igrejas negras mais antigas das Américas reivindica o Kemet (Egito Antigo)?
O cristianismo não é uma “religião de branco” trazida para a África; suas sementes germinaram no interior do continente, em Cuxe e Kemet. Os cristãos Coptas do Egito foram os primeiros a usar o Ankh como sua cruz (a Crux Ansata). Quando o usamos hoje, estamos restaurando uma verdade: a ideia de ressurreição e vida plena já era africana milênios antes da colonização.
A história de Absalom Jones é um ato de “Poder Negro” antes mesmo do termo existir. Ao sair de uma igreja segregada em 1787 para fundar a Free African Society, ele agiu como um verdadeiro arquiteto social. No brasão, a régua de São Tomás encontra a ética de Ma’at (Verdade e Equilíbrio). Jones não queria apenas uma igreja; ele queria uma comunidade onde o povo Muntu pudesse ser plenamente humano e divino.
Adotar o Ankh ☥ como uma “Cruz Africana” nas igrejas brasileiras não é apenas uma mudança visual; é um ato de soberania mental. Isso comunica que a espiritualidade negra não precisa pedir licença para se expressar com seus próprios símbolos ancestrais.
Por Hernani Francisco da Silva – Do Afrokut
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