Adentrar os espaços de formação docente no Brasil, seja na Pedagogia tradicional ou na Educação Profissional e Tecnológica (EPT), é deparar-se com um paradoxo incômodo: cruzamos corredores repletos de corpos diversos, mas as ementas curriculares permanecem rigidamente monocromáticas. Fomos historicamente ensinados a ler, estruturar e avaliar o fenômeno educativo a partir de um monólogo eurocêntrico, masculino e branco. O silenciamento dos saberes produzidos por intelectuais negros e africanos gerou uma falsa premissa internalizada: a de que a ciência pedagógica é uma exclusividade do Norte Global.
Compreender a inegável relevância de teóricos que moldaram o chão da nossa escola institucionalizada, como a avaliação diagnóstica de Cipriano Luckesi, a didática crítica de José Carlos Libâneo, a pedagogia histórico-crítica de Dermeval Saviani, a mediação de Lev Vygotsky, o construtivismo de Jean Piaget e a própria libertação freireana, não significa aceitar o confinamento a esses marcos.
A proposta deste artigo, fundamentada na AfroHumanitude, não é anular o cânone, mas romper com o seu monopólio. Buscamos diversificar radicalmente essa abordagem, tensionando as teorias clássicas a partir da intersecção com a Filosofia Ubuntu e resgatando a contribuição de grandes educadoras e pedagogos negros, continentais e da diáspora, que demonstraram que a aprendizagem é, antes de tudo, uma vivência e uma responsabilidade coletiva.
O princípio fundamental do Ubuntu enfatiza o “ser pessoa” por meio dos outros. Como nos ensinam Mugumbate e Nyanguru (2013), nossa humanidade está sintetizada na máxima: “Eu sou por causa de quem todos nós somos”. Sob a perspectiva do filósofo Mogobe Ramose (2002), a individualidade humana é uma condição necessária, mas não suficiente, para ser uma pessoa. É no reconhecimento, na reciprocidade e nos relacionamentos comunitários que nos realizamos. Quando olhamos para as teorias pedagógicas tradicionais através dessa lente amefricana e ancestral, conceitos que pareciam estritamente técnicos ganham uma profundidade visceral:
Paulo Freire e a Relacionalidade Crítica: A pedagogia freireana recusa a noção de um ser humano naturalmente individualista. Ao propor a dialogicidade e a educação problematizadora, Freire se aproxima da concepção relacional Ubuntu de que ninguém se educa sozinho. A práxis transformadora é comunitária: o ser humano se humaniza no encontro com o outro e com o mundo.
Lev Vygotsky e a Mediação Comunitária: Vygotsky pontua que o desenvolvimento humano é social e cultural, e que o aprendizado acontece nas interações. Na ótica da AfroHumanitude, a “Zona de Desenvolvimento Proximal” e a mediação não são apenas mecanismos cognitivos, mas a própria expressão da interdependência e da responsabilidade coletiva, onde o crescimento de um indivíduo depende do suporte e do acolhimento de toda a comunidade.
Cipriano Luckesi e o Acolhimento Amoroso: Luckesi defende que a avaliação deve ser um ato de amorosidade, diagnóstica e inclusiva, rompendo com a lógica da exclusão e da punição meritocrática. Esse olhar converge perfeitamente com os valores de compaixão e equidade do Ubuntu (Mbigi, 1997). Na pedagogia Ubuntu, a dificuldade de um educando não serve para rotulá-lo, mas convoca o coletivo a repensar as rotas de cuidado e partilha.
José Carlos Libâneo e a Prática Social: Libâneo define a didática como o elo entre ensino e aprendizagem, enxergando a educação como uma prática social comprometida com a transformação. O Ubuntu sofistica essa visão ao alinhar a escola à justiça social e à prestação de contas comunitária (van Breda, 2019). O saber escolar se valida quando serve para erguer a comunidade.
Dermeval Saviani e a Socialização do Saber: A pedagogia histórico-crítica de Saviani sustenta que o conhecimento historicamente produzido pela humanidade deve ser socializado para combater as desigualdades sociais. Na perspectiva africana tradicional, o conhecimento nunca foi propriedade privada; sua transmissão e socialização são ferramentas vitais para a continuidade e o fortalecimento do grupo.
Jean Piaget e a Interconexão com o Meio: Enquanto o construtivismo piagetiano foca na adaptação e na equilibração do sujeito na interação com o meio, as cosmologias africanas (Mbiti, 1969) expandem o conceito de “meio”. O sujeito não interage apenas com objetos físicos, mas está imerso em uma teia que conecta seres humanos, natureza, espiritualidade e ancestralidade.
A história da educação mundial foi profundamente impactada por pensadores negros da Diáspora e do Continente Africano que formularam pedagogias voltadas para a descolonização das mentes e das estruturas sociais:
Amílcar Cabral (Guiné-Bissau): Líder revolucionário e pensador fundamental. Cabral defendia que a libertação de um povo era indissociável da revolução cultural e da educação popular. Suas formulações anticoloniais foram pilares de diálogo e inspiração para a própria construção da obra de Paulo Freire.
Frantz Fanon (Argélia/Martinica): Em sua obra capital Pele Negra, Máscaras Brancas, o psiquiatra e filósofo dissecou os traumas e impactos psicológicos causados pelo racismo e pelo colonialismo. Fanon tornou-se a espinha dorsal das pedagogias decoloniais contemporâneas, mostrando que educar exige descolonizar o psiquismo e desmantelar a opressão.
Aimé Césaire (Martinica): Co-fundador do movimento da Negritude, suas reflexões contidas no Discurso sobre o Colonialismo desmascaram a hipocrisia eurocêntrica e servem como referência indispensável para educadores que buscam a valorização estética, identitária e literária da cultura negra.
Molefi Kete Asante (Estados Unidos/Diáspora): Formulador do conceito de Afrocentrismo, Asante transformou o debate curricular global ao defender que a história e a cultura africanas devem ser colocadas no centro do processo de aprendizagem. Para ele, o estudante negro deixa de ser mero espectador da narrativa alheia e passa a ser sujeito de sua própria herança.
Kabengele Munanga (República Democrática do Congo/Brasil): Radicado no Brasil, este eminente antropólogo desempenha um papel crucial na desmistificação do mito da “democracia racial”. Munanga aponta como o racismo opera sutilmente na estrutura dos currículos e das práticas pedagógicas, fornecendo a sustentação teórica para a aplicação prática de uma educação genuinamente antirracista.
Patrick Awuah (Gana): Fundador da Ashesi University, Awuah revolucionou o ecossistema do ensino superior na África. Seu modelo pedagógico inovador conecta a excelência acadêmica à ética de liderança e responsabilidade comunitária, demonstrando como os valores do Ubuntu podem guiar instituições de ponta na formação de jovens líderes globais.
As mulheres negras, tanto no Continente Africano quanto na Diáspora, provam que a pedagogia não se faz apenas com teorias abstratas, mas vinculando de forma indissociável o conhecimento escolar à defesa dos direitos humanos, do meio ambiente, do afeto e da igualdade de gênero.
Mulheres negras no Continente Africano:
N’Dri Thérèse Assié-Lumumba (Costa do Marfim): Uma das maiores autoridades vivas em educação comparada e pedagogia decolonial no mundo. Professora na Universidade Cornell e presidenta do Conselho Mundial de Sociedades de Educação Comparada, seus estudos redefinem as políticas de ensino superior na África e combatem a reprodução das desigualdades de gênero nas escolas.
Wangari Maathai (Quênia): Primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz. Bióloga e professora, Maathai criou o Green Belt Movement (Movimento do Cinturão Verde) e desenvolveu uma pedagogia ecofeminista e comunitária. Ao ensinar comunidades rurais a plantar milhões de árvores, ela transformou o ato ecológico em um processo de alfabetização ambiental, cidadania ativa e resistência política.
Mulheres negras na Diáspora: Influência Global e no Brasil
Bell Hooks (Estados Unidos): Intelectual cuja obra revolucionária Ensinando a Transgredir moldou as salas de aula globalmente. hooks criou o conceito de Pedagogia Engajada, unindo de forma brilhante as ideias de Paulo Freire ao feminismo negro. Ela defendia que o aprendizado deve ser um lugar de êxtase, liberdade espiritual e emancipação política, onde a mente, o bem-estar e o corpo dos alunos realmente importam.
Lélia Gonzalez (Brasil): Filósofa, antropóloga e professora universitária, Gonzalez foi pioneira mundial ao teorizar o conceito de Amefricanidade. Sua proposta repensa a identidade e a cultura da América Latina a partir da matriz negra e indígena, e suas críticas explícitas ao racismo estrutural nas instituições são hoje pilares indispensáveis para a aplicação de uma pedagogia antirracista.
Antonieta de Barros (Brasil): Jornalista, escritora e uma das primeiras parlamentares negras do país. Como educadora e fundadora de cursos em Santa Catarina no início do século XX, ela defendia corajosamente que a educação era a única “arma” capaz de emancipar os negros e as mulheres da condição de subordinação social. Antonieta também foi a responsável pela criação do Dia do Professor no Brasil.
Território, Quilombismo e a Prática Pedagógica no Brasil
O cenário brasileiro é rico em educadores negros e educadoras negras que revolucionaram o ensino, a alfabetização, a geografia crítica e a luta antirracista, deixando legados que dialogam profundamente com a coletividade Ubuntu.
Milton Santos: Embora mundialmente reconhecido como geógrafo, foi um dos maiores educadores do Brasil. Sua obra propõe uma verdadeira pedagogia da cidadania e do território, enxergando o espaço geográfico como ferramenta de conscientização política. Ele criticava duramente a globalização eurocêntrica e defendia que a educação deveria partir da realidade dos lugares periféricos para emancipar os sujeitos. Ao cunhar o conceito de “por uma outra globalização”, ensinou gerações a lerem o mundo criticamente.
Clóvis Moura: Intelectual, sociólogo e educador popular. Moura reformulou a historiografia nacional ao colocar os negros não como vítimas passivas da história, mas como agentes ativos e altivos de sua própria libertação através do conceito de quilombismo. Sua obra é fundamental para estruturar uma pedagogia histórica antirracista.
Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva: Professora e pesquisadora central para a educação moderna. Foi a relatora do parecer histórico que estabeleceu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Seu trabalho pedagógico moldou diretamente a aplicação da Lei 10.639/03, alterando a estrutura do ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas.
Luiz Gama: No século XIX, Gama foi um educador autodidata e letrado que utilizou a literatura, o jornalismo e salas de aula improvisadas como ferramentas pedagógicas de libertação de pessoas escravizadas. Ele provou, na prática, que o letramento era o primeiro e mais urgente passo para a conquista da liberdade jurídica.
Geni Guimarães: Escritora, poeta e professora normalista. Sua atuação marcante na educação básica e sua literatura infantojuvenil (como a premiada obra A Cor da Ternura) introduziram a representatividade e a afetividade negra no cotidiano escolar, servindo como uma verdadeira pedagogia da autoimagem e do acolhimento para crianças negras.
Hamilton Cardoso: Jornalista, intelectual e um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU). Desenvolveu um trabalho essencial de educação política e comunitária nas periferias de São Paulo durante a ditadura militar, utilizando a imprensa negra como uma escola viva de conscientização racial e direitos humanos.
Nilma Lino Gomes: Professora, antropóloga e ex-ministra. Sua tese inovadora sobre o movimento negro como um “educador” transformou a pedagogia brasileira. Ela demonstra com maestria como os saberes produzidos pelas lutas sociais ensinam o Estado, as universidades e as escolas a praticarem a verdadeira diversidade.
Em fim, construir pontes entre os teóricos consagrados da academia ocidental e a riqueza da intelectualidade negra não é apenas uma escolha teórica; é um compromisso ético com a verdade histórica. Filósofos africanos como Mbiti (1969), Kaunda (1966) e Mbigi (1997) nos mostram que a filosofia Ubuntu se fundamenta na justiça social, solidariedade, equidade, compaixão e interdependência. Ao contrapor a noção eurocêntrica do “Eu/Tu”, que isola e afirma o individualismo, o Ubuntu nos convoca para a relação de “Eu/Nós” (Chilisa, 2012).
Ao tecer essa intersecção teórica, percebemos que o diálogo em Freire, a mediação em Vygotsky, o acolhimento em Luckesi, a prática social em Libâneo, a socialização do saber em Saviani e a relação com o meio em Piaget ganham sentido pleno quando reumanizados pela AfroHumanitude.
Como educadores e pesquisadores em Pedagogia e na Educação Profissional e Tecnológica, nosso papel na Rede Afrokut e em todas as frentes formativas é transgredir. É romper o espelho narcísico do eurocentrismo para que nossos currículos deixem de ser um monólogo branco e masculino e passem a ser um quilombo pluriversal de saberes. Afinal, a educação só cumpre o seu papel libertador quando compreende, em sua totalidade prática, que nós só somos porque todos nós somos.
Por Hernani Francisco da Silva – Do Afrokut
Referências Bibliográficas
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GOMES, N. L. O Movimento Negro Educador: Saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis: Vozes, 2017.
HOOKS, B. Ensinando a Transgredir: A educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 1990.
LUCKESI, C. C. Avaliação da Aprendizagem Escolar. São Paulo: Cortez, 1995.
MAYAKA, B.; TRUELL, R. Ubuntu and Social Work: Global perspectives. International Social Work, v. 64, n. 1, p. 5-12, 2021.
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SANTOS, M. Por uma outra Globalização: Do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
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SEEHAWER, M. Decolonising methodology with Ubuntu. International Journal of Qualitative Methods, v. 22, p. 1-11, 2023.
VAN BREDA, A. D. A critical review of Ubuntu for social work practice. International Social Work, v. 62, n. 1, p. 439-450, 2019.
VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
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